Hipocrisia
HIPOCRISIA
Significado:
a. Característica ou comportamento de quem apresenta uma opinião que não possui ou finge sentir o que não sente; falsidade, dissimulação, fingimento.
b. Hábito que se baseia na demonstração de uma virtude ou de um sentimento inexistente.
Exemplos:
- Pessoas que se dizem “cristãs” (sejam lá católicas, evangélicas, batistas, ou o que for) mas são contra ajudar os pobres através de serviços sociais como Bolsa Família, cotas universitárias, etc.
- Pessoas que não param de falar de Jesus mas preferem trazer de volta o fascismo pro Brasil do que sacrificar uma gota dos seus muitos privilégios em prol de uma sociedade mais igualitária.
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A hipocrisia cristã é foda, e para quem tem familiares e ex-amigos Bolsonaristas como eu, dói demais. Há anos não sei como ter um relacionamento com essas pessoas por causa de suas posições políticas. Como posso me sentir segura ao redor de quem vota contra os direitos LGBTQIAPN+ sabendo que eu sou queer? Não tem como. Que tipo de amor é esse que se veste de palavras bonitas mas não se demonstra em ações? Isso pra mim não é amor, mas sim hipocrisia.
Hoje vejo que me pregaram o cristianismo a vida inteira mas que era tudo da boca pra fora pois a maioria dos cristãos não segue os passos de Cristo. Não alimentam os pobres. Não cuidam dos doentes. Não ajudam os que têm pior situação financeira (nem se forem parentes). Vivem em suas bolhas egoístas julgando a todos e acumulando dinheiro para gastar em viagens luxuosas enquanto seus familiares estão atrasados no aluguel e sem comida. Faça isso fazer sentido.
Hipocrisia é pregar uma religião mas praticar uma política que vai contra os valores da mesma religião. E política não é só votar a cada quatro anos e daí 1) voltar a dormir se seu escolhido ganhar ou 2) reclamar até a próxima eleição se seu escolhido perder. Votar mas não adaptar sua maneira de viver não muda nada materialmente. Política é cada decisão nossa no dia a dia, decisões que afetam o mundo ao nosso redor muito além do que a gente imagina. Política é TUDO, o tempo inteiro. Não tem como escapar. O que a gente come é política. O que a gente veste é política. O que a gente compra é política. A poluição que geramos é política. Tudo, absolutamente tudo que fazemos afeta alguém em algum lugar do planeta e viver sem consciência disso é performance política. É teatro e ilusão.
Cristãos que votam no Bolsonaro são fãs dessa performance, cegos por sua programação cultural e religiosa. Querem ter respostas absolutas e buscam um salvador branco que vai resolver todos os seus problemas, mas nem se tocam porque. O que não falta é desculpa para justificar sua política anti-pobre, anti-preto, anti-gay, anti-mulher, pró-sionismo… se fazem de inocentes para não terem que encarar sua monstruosidade. Negam seu racismo, sua homophobia e sua misoginia internalizada, mas normalizam milhares de piadinhas e comentários maliciosos ao longo de anos e depois ficam horrorizados com a epidemia de femicídios e discriminação que resulta dos mesmos. O conto de fadas que é a meritocracia continua implodindo perante seus olhos, mas é mais conveniente culpar o pobre por sua pobreza do que admitir estar errado ou reconhecer sua responsabilidade coletiva. Vivem para manter uma sociedade capitalista, individualista, que descarta seres humanos como se fossem lixo e que trata a natureza e os animais pior ainda. Idolatram o dinheiro – um papel, uma idéia inventada por homens – e adoram falar de Jesus, um Palestino comunista, mas ai de você se mencionar socialismo ou comunismo. Ficam regurgitando críticas de Cuba, Rússia, China que nem papagaios, e ignoram o fato de que NUNCA existiu uma sociedade realmente socialista ou comunista dentro do regime CAPITALISTA, só estados experimentando tipos diferentes de transição. Adoram apontar o dedo e controlar a vida dos outros porque é mais fácil do que olhar para si, para sua parte nesse sistema nojento e obsoleto que sacrifica nossos corpos... que cria uma falsa escassez em meio à abundância que a Mãe Natureza nos dá gratuitamente, só para gerar lucro para um bando de Tio Patinhas viciados em acumular moeda nesse joguinho de Banco Imobiliário, Versão Inferno. A propaganda capitalista sugou a humanidade desses "cristãos” faz tempo e eles ainda nem se deram conta. É muito triste.
Eu entendo visceralmente de política porque a minha existência é e sempre foi política. O meu sexo, meu gênero, minha pele, minhas palavras são política. Porque a política vira leis que regem minha vida, que limitam minha autonomia sobre meu próprio corpo, que determinam meu acesso (ou falta do mesmo) como pessoa incapacitada, que protegem (ou não) meus direitos humanos sendo LGBTQIAPN+. No Brasil, eu sou considerada branca apesar de provir de uma mistura de ancestrais europeus e indígenas como muitos brasileiros. Nos EUA, eu sou considerada latina e sou imigrante ainda por cima, o que tornou minha existência ainda mais política. Desde que cheguei aqui tive que declarar minha raça em tudo que é documento e essa informação foi usada contra mim várias vezes na procura de emprego, apartamento, tudo. Por isso eu vivo de uma maneira radicalmente política, em que as minhas escolhas diárias refletem os meus valores, independentemente se é ano de eleição ou de quem está no poder. Eu tenho que viver assim, alinhada, até porque meu autismo não consegue mascarar mais. Requer muita energia para mentir pra mim mesma desde que comecei o processo de descolonização da minha mente e renunciei o catolicismo que me foi enfiado goela abaixo.
Morando nos EUA há mais de 30 anos, eu assisti esse país devagarinho virar o Brasil dos anos 80 no qual eu cresci, e tudo por causa da influência cristã (principalmente evangélica) e da ganância infinita do setor privado. Primeiro em San Francisco, onde a indústria tech tomou conta depois dos anos de política conservadora do Bush e da quebra do mercado imobiliário de 2008. Os bancos salafrários foram socorridos com o dinheiro público pelo governo Obama, que entrou logo em seguida, mas as pessoas que haviam sido enganadas pelos bancos não só perderam suas casas como também foram abandonadas pelo mesmo governo. Daí o setor privado (private equity) foi lá e comprou essas moradias por valores bem abaixo do mercado e as converteu em imóveis de aluguel, aumentando o preço dos aluguéis exorbitantemente e sem regulação nenhuma. Os criminosos de terno e gravata, pra variar, se deram bem e o povo, pra variar, pagou o pato.
Eu assisti horrorizada aquela linda meca cultural que era San Francisco virar uma coisa monocromática, pálida e insossa depois de sua “gentrificação”. Os aluguéis se tornaram tão absurdos que muitas famílias que estavam lá há mais de quatro gerações foram forçadas a sair da cidade. Na minha caminhada para o trabalho, eu que geralmente via uma pessoa moradora de rua por dia, passei a ver em média cinco por cada quarteirão que passava. Eu sei porque eu contava (coisas de cérebro autista) e aquilo me doía muito. Também passei a ver a pior coisa do mundo: mães com crianças no colo pedindo dinheiro na rua, tudo que eu tentei escapar da minha infância no Brasil. A crise de pobreza e falta de moradia acessível eventualmente tomou conta da California e se espalhou pelos Estados Unidos inteiro, e a solução? Várias leis estaduais foram criadas nos últimos anos criminalizando os pobres moradores de rua. Ao invés de dar moradia para essas pessoas, o governo que prega Deus e liberdade usou o dinheiro público para mandar essas pessoas para cadeias que são privatizadas e muito lucrativas. É o cúmulo da hipocrisia. O capitalismo cria a pobreza que gera o crime, e daí culpa o pobre. Não é à toa que o sistema carcerário dos EUA, o país mais rico do mundo, tem a maior população de presidiários do mundo (343 milhões de seres humanos em jaulas).
Hoje em dia, em New York, crianças vendendo doces e chocolates no metrô virou ocorrência diária aqui, e me dói profundamente vê-los se arriscando perante os nazistas do ICE para ajudar suas famílias imigrantes a sobreviver durante o atual regime fascista. Que cristão consegue olhar para essa realidade e ainda culpar o pobre, o marginalizado, o imigrante pelos problemas da sociedade? Só o cristão hipócrita, que não absorveu porra nenhuma nas suas aulas de catequese. Eu não me considero mais cristã, mas os colégios católicos que me educaram me ensinaram a valorizar a vida em todas as suas formas. A idéia que alguns seres têm mais valor do que outros é ridícula e anti-cristã. O valor que cada ser oferece à sociedade vai muito além do que aquele ser pode produzir financeiramente. Suas personalidades, criatividade, e presença oferecem valor imensurável. Se um ser nasce incapacitado ou se torna incapacitado ao longo da vida, esse ser merece ser ajudado e cuidado com amor e respeito. Se um ser nasce pobre ou se torna pobre ao longo da vida, esse ser também merece ser ajudado e cuidado com amor e respeito. TODA vida merece ser cultivada com amor e respeito… senão qual é o propósito de uma sociedade?
Ninguém é pobre porque quer ou por falta de esforço, mas sim por falta de acesso ao básico (moradia, comida, saúde, educação) e oportunidade. Quando a pessoa já nasce com o básico, vai bem mais longe do que aquela que tem que começar da estaca zero. E vamos ser sinceros né, nesse sistema explorador, os que trabalham mais duro, os que produzem mais valor, os que realmente sustentam a sociedade são os que menos vêm a cor do dinheiro: garis, agricultores, empregadas domésticas, professores, etc. Enquanto isso os mais inúteis, esses CEOs e executivos que falam mais do que fazem ou produzem, são remunerados e bajulados muito além do que merecem. A lenda da meritocracia sempre foi historinha pra boi dormir, e só pessoas totalmente sem noção ainda regurgitam essa idéia idiota para não terem que admitir seu próprio privilégio ou ignorância. O maior problema da meritocracia é que torna as pessoas individualistas e competitivas, quando nossa sobrevivência nesse planeta requer colaboração e interdependência coletiva. Ou você desperta logo para essa realidade, ou estamos todos lascados.
A pobreza é uma violência contra todo ser humano, inventada para manter um sistema artificial de dominação onde uns querem ter mais poder porque seus egos precisam se sentir superiores. A elite quer ser servida, quer ser mimada, então precisa de uma classe trabalhadora desesperada o suficiente para aceitar salários medíocres e condições de trabalho humilhantes. Para impedir revolução, seduzem a classe média com migalhas e promessa de ascensão social, e viram esses contra os pobres, porque enquanto essas classes permanecem distraídas se atacando nada precisa mudar. Pessoas sem essa consciência de classe têm ou tiveram muito privilégio e só não pararam para examinar isso ainda. Sofrem de um mal de nunca se sentirem suficiente, nunca terem suficiente, mas não entendem porque. São escravos do capitalismo, devotos fiéis da estratificação social que mantém esse sistema funcionando, só não enxergam. Os que defendem os milionários acham que um dia serão milionários, não entendendo que estão muito mais perto de ficarem pobres do que de ficarem ricos, pois o sistema só funciona com poucos no topo suportados por muitos na base.
Eu não entendo como certas pessoas podem ser tão egoístas, só focadas em garantirem seus montinhos de dinheiro sem dar a mínima pros outros. Da minha parte, eu desejo que todo ser humano tenha uma moradia segura e confortável, comida saudável, uma boa educação, serviços de saúde, e apoio comunitário. Eu não me importo de dividir recursos, porque quando todos têm o básico que necessitam a sociedade inteira se beneficia. Existe aqui na Terra, nosso planeta maravilhoso e abundante, mais do que o suficiente para todos nós dividirmos. Se você acha que isso é idealismo ou utopia, eu te convido a pausar e refletir porque você pensa assim, de onde vem essa sua idéia de que as coisas têm que ser como estão, uns com muito mais recursos do que precisam enquanto outros passam fome... da onde vem sua resistência à uma melhora coletiva?
Se você quer que as coisas mudem, comece mudando sua maneira de pensar e sua maneira de agir. Ali está a chave. Uma vez que a gente muda, nossas interações mudam, nossos relacionamentos mudam, nossos círculos de influência mudam, reverberando nossa intenção para muito além do nosso contexto. Se você quer votar pra não ter que mudar seus conceitos, sinto muito lhe dizer mas você tá ferrado seja lá quem ganhar. A raiz dos problemas do Brasil e dos EUA é a mesma: suas fundações são podres, e não dá para construir nada sólido, que dure, em fundações podres. Esse continente construído à base do estupro de mulheres e crianças indígenas, do genocídio indígena, e da escravização de Africanos está vivenciando seu juízo final. Enquanto não houver reparações, não haverá paz nas Américas. Além disso, estamos testemunhando o colapso climático à nível global, e o estágio final da sua causa: o capitalismo desregulado e desenfreado, fruto do colonialismo e do imperialismo norte-americano/britânico. Portanto seja quem ganhe essas eleições (Lula ou Bolsonaro Jr), o Brasil vai ter que enfrentar essas realidades… não vai ser fácil, mas você pode escolher se quer que seja mais difícil (com fascismo) ou menos difícil (sem fascismo).
Os norte-americanos por sua vez escolheram o fascismo e a coisa aqui está feia – muitas pessoas sendo sequestradas no meio da rua em plena luz do dia pelo ICE, sendo mandadas para campos de concentração onde muitas desaparecem, muitas são torturadas e negligenciadas, muitas são forçadas a trabalhar, muitas morrem no processo. A censura e vigilância estão piores a cada dia que passa, os empregos mais escassos e pagando cada vez menos, e a inflação cada vez maior. A situação social, política e econômica nos EUA nunca esteve tão ruim, e vai piorar ainda mais quando a bolha da Inteligência Artificial estourar a qualquer momento. O pior é que a gente só vai entender o nível real da podridão aqui quando o palhaço pedófilo laranja acabar na guilhotina, e isso infelizmente vai demorar um pouco porque o norte-americano é muito acomodado. Sou grata por meus professores de história e literatura que me ensinaram sobre a ditadura militar no Brasil, pois me prepararam para esse momento. Por isso eu entendo a minha responsabilidade como artista, sei do peso das minha palavras e do risco que é dizer a verdade aqui, agora, sendo uma imigrante naturalizada.
E você aí no Brasil, quer ter esse gostinho de ditadura de novo? Espero sinceramente que não. O Brasil custou muito a conquistar a democracia, e repetir nossa história não seria progresso, mas sim insanidade.
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